Edição 1 de 4 · Trilha de varejo e consumo. O AI4 2026 reuniu 12 mil executivos de 100 países em Las Vegas, no maior evento de inteligência artificial do mundo, e montou pela primeira vez uma trilha inteira dedicada ao varejo e aos bens de consumo. A Powerbizz.ai esteve lá os três dias, com equipe credenciada. Esta série compara, edição a edição, o que se discutiu lá com o que já funciona aqui.
Puseram a IA no fone do vendedor
A Ace Hardware, rede americana de material de construção com cerca de 5 mil lojas, subiu ao palco em Las Vegas para contar uma decisão que contraria o senso comum: em vez de colocar a inteligência artificial na frente do cliente, colocaram no fone de ouvido do vendedor. Já são mais de 2.700 lojas rodando assim.
O vendedor pergunta e recebe a resposta ali mesmo, com o cliente na frente. Sobre o produto, sobre a comparação entre dois itens, sobre como executar a obra que a pessoa acabou de descrever. A frase que a executiva responsável usou foi direta: não queremos substituir os associados. As pessoas vão à loja justamente porque sabem que serão ajudadas.
- A ferramenta tinha que caber no ritmo real de quem atende, que já está repondo prateleira, indo ao caixa e respondendo cliente ao mesmo tempo. Se pesar, vira mais uma cobrança da matriz.
- Testaram com os próprios vendedores antes de lançar, e não em laboratório nem em apresentação de diretoria.
O problema que originou o projeto também não era tecnológico: era o tempo que um vendedor novo levava para dominar dezenas de milhares de itens. Daí a frase que ficou da apresentação e que vale para qualquer projeto: primeiro se apaixone pelo problema, depois pela tecnologia.
Uma joalheria brasileira faz a mesma coisa
Nas Joalherias Julio Okubo, operação que a Powerbizz.ai construiu e gerencia, existe exatamente o mesmo agente da rede americana, com a mesma função: ele não atende cliente nenhum. Atende a vendedora. Ela tira dúvida sobre produto e, principalmente, consulta se a peça existe em outra unidade. Pergunta e recebe na hora.
O ganho é idêntico ao que se contou no palco em Las Vegas. Antes, essa pergunta ia para o grupo de WhatsApp da rede, e uma consulta interrompia as vendedoras de todas as outras lojas no meio dos próprios atendimentos. Dezenas de conversas paravam para que uma fosse respondida.
Só que a Okubo não parou aí. Colocou um segundo agente, esse sim para atender o cliente, que resolve algo que a rede americana não citou: ninguém fica sem resposta, em nenhum horário.
Ele não desliga quando a loja fecha. Muda de função.
Ele atende 24 horas por dia, sete dias por semana. O que muda é a função. Com a loja aberta, é recepcionista: recebe o cliente, entende o que ele quer e encaminha para a vendedora, que faz a venda. Com a loja fechada, vira vendedor: consulta o estoque real, sugere a peça, monta o carrinho e conduz a venda até o fim, sozinho.
O ponto é esse. Não é um agente que substitui a equipe em certos horários, é um que nunca deixa o cliente esperando e sabe a hora de sair da frente. No horário comercial, a conversa da aliança de casamento continua sendo da vendedora, que é onde está a margem.
No dia a dia da loja, ninguém faz uma coisa só
No palco principal do evento, uma das três maiores autoridades em inteligência artificial do mundo explicou por que esse assunto assusta tanto: quando se fala de IA e emprego na mesma frase, todo mundo entende demissão, mesmo quando ninguém disse isso.
Mas ninguém no varejo faz uma coisa só. Uma vendedora atende, consulta estoque, monta pedido, cuida da vitrine, resolve troca e cobra quem prometeu voltar. A IA ajuda em algumas dessas coisas e não encosta nas outras. O que muda não é o cargo, é quanto tempo sobra para a parte que vende.
- O que foi conversado no balcão vira registro no sistema e material para treinar o time, sem ninguém digitar.
- O vendedor manda uma mensagem no WhatsApp e o sistema se atualiza sozinho, registrando o cliente e o próximo passo da venda.
- O atendimento deixa de ter horário: nas operações que gerimos, mais de 35% das conversas chegam fora do expediente, e passam a ser respondidas na hora em que chegam.
Os três resolvem a mesma coisa. Todo varejo já pagou por um sistema de gestão de clientes e quase nenhum tem informação de cliente dentro dele. Não é má vontade do time: preencher formulário no fim do expediente disputa com fechar a próxima venda, e a venda ganha sempre. Quando alimentar fica fácil, o vendedor alimenta.
Na próxima edição: 85% das perguntas são sempre as mesmas. Onde está meu pedido, quanto fica o frete, tem na minha numeração. O que a IA tira da fila não é o atendimento, é a repetição.
Cobertura exclusiva do AI4 2026, The Venetian, Las Vegas. As organizações citadas apresentaram no evento; a menção não implica relação comercial com a Powerbizz.ai.
Publicado por Powerbizz Intelligence, em 22 de setembro de 2026.
